Atraso
Enjaulada no trânsito da cidade, ela adquire muitas formas de passar o tempo. A caminho do trabalho toma café (cereais, iogurte e algumas frutas), se maquia (um blush, rímel e um pó para disfarçar a olheira), estuda para a faculdade (um pouco de história e filosofia) e fala ao celular. WhatsApp para as amigas, para os crushs, para a mãe. No carro 1.0 (que ganhou do pai ao fazer 18 anos) uma rádio comercial reina absoluta.
São 8h32 segundo o locutor, que acha que seus ouvintes são surdos e fala rápido e sem pausas. Ela está atrasada, como de costume. Seu chefe, um homem frustrado com o fim do casamento, com certeza vai pegar no seu pé mais uma vez.
Ela chega ao escritório às 9h12 (42 minutos depois de seu horário) tentando se explicar:
— Olavo, o trânsito na Marginal estava impossível.
E com toda a impaciência do mundo ele responde:
— Se fosse impossível você não teria chegado. Além do mais, se sabe que o trânsito está ruim, sai mais cedo de casa.
Com o rabo entre as pernas torneadas, ela vai para a sua pequena mesa. Passa o dia todo reclamando do chefe para os amigos no direct do Instagram e pelo WhatsApp, o resto do tempo gasta fazendo trabalhos chatos que só são feitos pelos estagiários.
Tem boa relação com o restante da equipe, principalmente com os homens, que costumam oferecer pequenos favores, cafés fora da empresa, cervejas pós-expediente, caronas mesmo ela tendo carro, dates mesmo ela não querendo sair com ninguém da empresa. A verdade é que a outra estagiária trabalha bem mais que ela.
Quando o relógio crava 18h, ela sai do trabalho (sem pagar o atraso matinal) a caminho da aula de sociologia, mas não parece se preocupar tanto assim. Sabe que terá presença.
Repete o mesmo ritual da manhã. Lanche, maquiagem, rádio e alguma leitura (dessa vez trends do Instagram).
Antes da aula passa numa loja do shopping só para trocar uma blusinha. Sai de lá uma hora depois com mais uma calça jeans, duas saias e ainda sem trocar a peça de roupa.
Chega à faculdade às 20h18, 48 minutos depois do professor, que finge não a ver entrar.
Senta ao lado de uma de suas amigas e começa a falar da loja, do chefe, das
mensagens do cara que ela conheceu na balada e nem se dá ao trabalho de
tirar o material da bolsa.
Já são 21h.
Passa o intervalo, a segunda aula atenta ao celular e o ritual do carro agora só conta com a
rádio, que parece tocar o mesmo repertório durante todo o dia.
Não lê e não come, porque dá uma carona a Fernanda, sua amiga e vizinha do mesmo condomínio. Falam ao mesmo tempo, e se entendem. Pegam um pouco de trânsito,
discutem com um caminhoneiro que não deu seta e chegam em casa depois de um longo dia e de furar dois faróis vermelhos por questão de segurança.
Sobem o elevador, Fernanda desce no 7º andar e ela continua até o 10º.
Chega em casa e se reconecta às redes sociais, termina a conversa com a
amiga de três andares abaixo, dá match com um carinha da faculdade e tem uma discussão corriqueira com a mãe. Culpa os pais por não serem carinhosos, reclama da separação e chora às 0h22.
Tranca-se no quarto, agora reclama da mãe para a amiga, dá match com um cara do bairro e se arruma para dormir (creme noturno, hidratante no corpo, um creme antirrugas apesar dos 20 anos)
Arruma o material do dia seguinte, separa a roupa (uma das saias novas) e se deita com o celular programado para despertar às 6h45.
Durante a noite sonha com uma avenida sem trânsito, um chefe sem frustrações, um namorado que transe bem e uma casa com pai e mãe. Acorda mais uma vez atrasada, mas não tempo suficiente para perder a locução das 10 músicas pedidas pelos ouvintes.
O conto de hoje também entra na esteira dos textos escritos há 14 anos. Em junho de 2010, eu, jovem há pouco tempo com 24 anos, não sabia muito bem o porquê, mas entendi que precisava escrever mais, mesmo que as ideias não estivessem bem amarradas, finalizadas. Que eu precisava melhorar a minha descrição de personagens, reais ou fictícios. Esse é um exercício que só consigo publicar hoje depois de me levar muito menos a sério.
Espero que gostem.




Oi, Pedro, espero que você esteja bem. Aqui é a Maiza. Sou amiga da Ainá e sigo seu boletim desde que ela compartilhou no Instagram esses tempos. Resolvi deixar um comentário aqui porque fico sempre com uma pulga atrás da orelha quando alguém diz que decidiu se levar menos a sério. Eu não sei se essa expressão não faz sentido pra mim porque sou um pouco chata de galocha, mas sempre fico me perguntando o que significa se levar menos a sério. No caso da sua decisão de publicar textos de muitos anos atrás, será que não seria justamente o contrário? (Perguntando genuinamente, porque realmente fico na dúvida). Fora isso, parabéns pelo(s) texto(s) e pela coragem de mostrá-los ao mundo e obrigada por tanto :))