Banalidades
Às vezes acho que tenho que me engajar no Linkedin, colocar uma foto de camisa e ser mais jornas oclinhos. Às vezes acredito que o caminho e sair das redes sociais para me desintoxicar. Tem vezes que penso que a melhor saída é postar mais coisas, mostrar o quanto sou um ser humano seguível e tentar deixar minha vida mais instagramável. E tem vezes que paro aqui para escrever sobre todas essas angústias.
Tem dias que acho que meus textos perderam o swing e o swag, apago tudo e volto à estaca zero. Algumas vezes acho que acerto, torço para que o texto seja lido e muitas outras sequer tenho tempo de escrever tudo o que se passa na minha cabeça.
Eu produzo melhor na parte da noite, agora, por exemplo, são 22h19 e cá estou batucando nas teclas em busca que uma ideia que preste. Os dias têm sido longos. Viro chaves, emulo personagens que se encaixam no jogo da vida adulta e tento viver um dia de cada vez, um trampo de cada vez, uma entrega de cada vez. Mas às vezes (quase sempre) a vida se mostra confusa, embaralhada em suas prioridades e métodos de home office, ou teletrabalho.
A vida online é tóxica e essas dúvidas sobre ser a persona do Linkedin, o popular do Instagram ou o polêmico do X nem deveria ser um problema, mas é. E tenho uma curiosidade desde sempre que é olhar o perfil de pessoas que conheço há muito tempo para ver em qual desses perfis a pessoa se perdeu. Que personagem é esse que ela está interpretando no momento? Está de tailleur ou gravatinha cagando uma regra que escreveu durante o almoço executivo? Está de regata postando fotos do bíceps para tentar superar uma desilusão? Está fazendo uma dança no TikTok para tentar engajar alguma coisa? Está respondendo a perguntas que ninguém fez? Ou está, como eu, espionando perfis que um dia fizeram sentido?
Eu tenho sido um péssimo amigo do Instagram ultimamente. Não consigo fazer minha habitual curadoria de memes e tampouco consumir o que recebo, mas continuo a oferecer colo e abraço. Tenho sido um péssimo executivo do Linkedin, mas continuo trabalhando em projetos e histórias que me dão orgulho. Então tenho perguntado a mim mesmo: a quem serve essa personagem que preciso apresentar aos meus seguidores? Quem vai entender, de fato, que eu faço um monte de coisas, divulgo elas em meio à minha vida pessoal e que isso não é um personagem? Isso não é um personagem?
Eu ia aproveitar esse texto para escrever sobre ghosting profissional, mas não sei se tenho paciência para escrever sobre pequenos poderes. Mas um dia talvez eu fale sobre os porteiros da comunicação: aqueles que têm o poder de liberar, ou não, a cancela para você apresentar suas ideias. Quem sabe um dia?
Às vezes eu acho que tenho que gerar engajamento nesses textos de quinta. Outras vezes acho que só preciso despejá-los no Google Docs. Mas todos os dias tenho a certeza de que não quero ser aquela pessoa que vê seus sonhos mofarem numa baia offline.
Eu tenho tentado não sucumbir ao influencer do Instagram, nem ao tiozão que posta bom dia e salmo no Facebook, nem ao opinativo do X e muito menos ao CEO de MEI do Linkedin. Eu tenho tentado dar conta do trabalho, da vida e da saúde mental, mas essas abas abertas insistem em atrasar o meu trampo.




Peu, conheci teus textos pela Mary Jane e, desde então, sempre estou por aqui quietinha
Já li teu livro (o melhor que li no ano passado, sem dúvida nenhuma) e leio todas as news no dia que chegam. Me identifico taaanto com essa. Talvez essa seja mais uma das perspectivas de não-lugar (que tu sempre traz).
Achei essa era uma oportunidade de te falar que teus textos têm um lugarzão por aqui e que admiro muito teu trabalho :)
Obrigada pela sua reflexão, Peu. Me pego nos mesmos loops mentais que você e sinto que esses perfis clássicos da vida moderna de redes sociais são tão tão opressores que eu desisto de existir online, por muitas vezes, porque o medo de cair neles é mais forte do que ser eu mesma. Mas tô aqui na missão de seguir na autenticidade porque a internet precisa de mais pessoas como nós ✨