Dia do Cabelo Maluco
Sabadão, véspera de Dia das Crianças, shopping, caos, compras, sacolas, filas, piscina de bolinhas, escorregador, aqueles carrinhos de controle remoto que são mais brinquedos para os pais do que para os filhos: consumo, consumo, consumo, o de sempre.
Um homem adulto, de camisa social azul marinho e sapatênis passa com o cabelo pintado de verde numa dissonância com sua personalidade. Na Renner, um atendente esbanja uma enorme aranha amarrada no topo de sua cabeça, uma outra funcionária tem notas falsas de 50 reais emaranhadas em seus cabelos. Uma pintura na cara aqui, uma maquiagem desconexa ali e um homem de Crocs e vestido de Homem Aranha distribui balões na loja de sapatos infantis (esse até que faz sentido).
Sabe aquela brincadeira, às vezes terror das mães e pais, chamada “Dia do Cabelo Maluco”? Pois é, agora, aparentemente é moda também no trabalho e principalmente em quem lida diretamente com o público.
Eu sei que posso estar sendo ranzinza, provavelmente sim, e que talvez isso seja coisa de quem é jovem há muito tempo, mas o “Dia do Cabelo Maluco” no trabalho me parece muitas coisas e nenhuma delas carrega as palavras: divertimento, alegria, brincadeira ou graça.
Dá para entender as crianças, num universo lúdico, se divertirem com pintar, espichar o cabelo ou pintar a cara com tinta. Vi até um menino que virou o Optimus Prime de caixa de papelão e chegou cheio de pose na escola. Massa. Mas ter que ir para o escritório com a roupa da Frozen talvez seja um pouco a mais.
Anos atrás o lema era “vestir a camisa da empresa”, numa patética tentativa de fazer o funcionário se sentir parte daquela receita em que ele faz a massa, assa, confeita e come pequenas migalhinhas do lucro. Porém, agora além de fazer o bolo, aparentemente, o trabalhador precisa estar vestido de palhaço e fazer malabarismo com o salário.
O “Dia do Cabelo Maluco” me soa como uma grande humilhação para o trabalhador. “Ah, mas você pode escolher não se fantasiar”, pipipipópó. Não é tão simples assim, você sabe, eu sei. No fim das contas, a “firma” verá com bons olhos a sua dedicação e aquele mais tímido acaba sendo o que não colocou a camisa de força com o logo da empresa. Aquele que não se dedicou o suficiente. O primeiro a rodar.
E aí, você escolhe pintar uma borboleta na cara ou a carta de demissão?
A primeira opção talvez seja menos humilhante, mas será mesmo que o trabalhador precisa se vestir de Pikachu para exercer sua função?
Não dá para saber se, de fato, estamos vivendo uma infantilização do mercado de trabalho ou se é apenas o sadismo de quem controla: a questão é que a moça com um pompom na cabeça e uma “maquiagem maluca” na cara ou o rapaz desconfortável vestido de super-herói não parecem estar mais felizes fazendo aquilo e a cena fica ainda mais desgraçadamente triste quando você é atendido por uma pessoa vestida de Branca de Neve exalando mau humor. Não julgo, também estaria puto se tivesse que trabalhar no sábado à tarde nessas condições.
Sei que é muito fácil falar sobre isso aqui do alto da torre de meus privilégios (que nem são tantos assim), mas quando vejo um trabalhador fantasiado só consigo pensar numa coisa: “coitada dessa pessoa.”
Preparem-se, no final de outubro teremos Halloween, mais uma importação que nos presenteará com trabalhadores vestidos de monstros, múmias, vampiros e outras criaturas menos horripilantes do que a situação em si.




Isso me lembra a famosa frase: O trabalhador não tem um dia de paz.
E se tem uma coisa que eu faço questão de tratar bem, são pessoas que lidam com o público. É muito difícil.