Forte abraço
Antes de mais nada, acho que é válido dar alguma satisfação a quem me lê. Me permiti uma folga, porque apesar de ser apegado a processos, eles também podem ser cansativos em algumas fases. Não vou vir com papo de energias renovadas, novo ciclo, por favor, não esperem isso de mim. Parei porque precisava parar e volto, porque acho que é importante o que há aqui nessas páginas.
Poderia voltar com opiniões quentes sobre as fofocas literárias, sobre a volta do Neymar, a eleição do Trump, o Grammy, “Ainda Estou Aqui”, o que falou Yago Opróprio ou qualquer outra notícia que vai mudar completamente a vida de vocês, mas não. Assim como nos primeiros textos, vou deixar apenas um fluxo de pensamento fluir e ver a que ponto chegaremos.
Talvez esse seja mais um processo mais terapêutico do que literário, mas a decisão é toda de vocês que escolheram chegar até aqui.
Eu tenho revirado minhas gavetas bagunçadas, tenho tentado entender quais relações quero cultivar, quais relações não são tão importantes assim. A quem devo lealdade e principalmente quem quero por perto. Acho que é uma das crises quando se é jovem há muito tempo, mas você vai ficando com menos paciência para sentimentos intensos e joviais. Às vezes um amigo que senta contigo e te diz que você está sendo babaca é mais importante do que um amigo que te ajuda a ser babaca.
E nessas andanças de memórias, mágoas e alguns sentimentos bons, tenho pensado muito sobre uma amizade que se desfez e o quanto isso doeu, dói e o quanto isso tem me ensinado a não esperar das pessoas mais do que elas podem oferecer. Meu sarrafo de lealdade e entrega é muito alto e esperar isso das pessoas é desonesto.
Sem citar nomes — obviamente — gostaria de escrever sobre um ex-amigo. Uma pessoa que era próxima, que sabia meus segredos, que, teoricamente, vibrava com minhas vitórias e por quem eu pulei e pularia na bala muitas e muitas vezes.
A relação acabou. Fim. Sem diálogo, sem ideia, sem aperto de mão. Tentei por muitos meses entender onde doía nele, acolher essa dor, mudar o que fosse preciso em mim, abraçar, ouvir, mas a porta permaneceu fechada.
E com essa porta fechada pude ver que mesmo quando ela estava aberta, era desproporcional. Eu me entregava mais, tinha mais amizade, trabalhava mais e não era reconhecido. Era quase como se fosse minha obrigação correr para manter essa relação.
Era uma amizade com hierarquia.
As vitórias que tivemos juntos se tornaram conquistas individuais para ele. Eu, que sempre fui um animal coletivo, me vi sozinho. Doeu, ainda dói, mas aprendi a olhar mais para os meus passos, aprendi a focar em coisas que eu gostaria de fazer. Celebrar as minhas vitórias pessoais em silêncio.
Neste processo, voltei a escrever com frequência por aqui, lancei um livro, vivi e tenho vivido coisas muito importantes. Às vezes tenho saudade de compartilhar essas conquistas com meu ex-amigo, às vezes me arrependo de ter compartilhado tantas coisas com ele. Me arrependo de ter aberto a minha casa, quando ele não queria entrar, mas faria de novo se pá.
Sumi de sua vida, sou no máximo uma memória que ele escolhe lembrar com amargura. Uma pena.
Tenho tentado levar uma vida menos azeda, um espaço-tempo em que eu possa saborear minhas vitórias, celebrar a vida com quem quer estar por perto e olhar para o que realmente importa.
Continuarei educado: sigo nas redes sociais, dou bom dia, boa tarde e boa noite, mas só posso estar perto de quem quer estar por perto. Continuo torcendo para que ele mantenha seus sonhos, conquiste suas vitórias.
Celebro aqui também meus novos amigos, meus velhos amigos. As pessoas que me procuram quando estão a fim de celebrar e desabafar, as pessoas para quem eu ligo para contar uma novidade ou simplesmente para chorar minhas pitangas. Muito obrigado por estarem por perto.
Ciclos têm início, meio e fim. Entendemos isso com os ídolos dos nossos times, com relacionamentos amorosos, mas temos (eu tinha pelo menos) dificuldade de entender isso nas relações de amizade e por muito tempo confundi amizade com presença.
Ao ex-amigo, desejo toda a sorte do mundo, mas esse champanhe não beberemos mais.



