O enquadro do Meu
O capítulo que não entrou no Parque Modelo
Separei hoje um pequeno trecho, tentando não dar muito spoiler, que acabou ficando de fora da versão final de Parque Modelo, meu primeiro romance que será lançado em poucos dias pela Editora Jabuticaba.
Curiosamente, este é o trecho que talvez mais inspire a ilustração de capa feita pelo Oga Mendonça e tem também forte presença de incômodos que aparecem ao longo do livro.
A gente escolheu tirar este trecho porque o personagem descrito, chamado Meu, se afasta do narrador da história nesse momento e ficou sendo um pedaço que também se distancia da linguagem do resto do livro. Mas, ainda assim, eu queria colocar essa parte no mundo
De qualquer forma, espero que gostem.
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Meu sobe a Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Ele chama a moto no grau. Feliz, sorri por baixo do capacete rosa. A moto quase na vertical, a vida parece sorrir de volta sem parcimônia. Acima dele só Deus e a roda da frente.
Por pouco tempo.
No cruzamento com a Avenida Paulista, a realidade vem dura como uma pedra de crack.
Uma blitz policial, dessas que fecham a rua toda e movimentam um batalhão inteiro, aparece no horizonte. Ao avistarem a motinha que carrega um menino preto de pele escura, os policiais vêm babando. Foi um tal de “Encosta, vagabundo! Mão na cabeça. Cadê o bagulho?”, o de sempre.
Meu contou que manteve a postura, parou a moto sem pressa e falou também que ao seu lado estavam outros jovens, três ou quatro, todos pretos, com as mãos para cima. Procedimento padrão, eles disseram.
A melhor pesquisa do censo para saber se você é preto ou branco é a Polícia Militar. Nessa rotina, se você tiver a pele clara passa, se tiver a pele escura fica para averiguação.
Eles olharam o documento da moto, perguntam de onde ele estava vindo, para onde ia e, sempre aos gritos e xingamentos, tentam forjar um flagrante. Isso porque eles não viram ele empinar a moto a poucos metros.
Ele, criado nas bordas, aprendeu a responder sempre com “sim, senhor” e “não, senhor”, e a manter a cabeça baixa e um olhar subserviente, mas tem o ódio que só quem é obrigado a passar por situações como essa sente.
Ele disse que estava tranquilo, que sabia que não tinha nada em cima e que era só esperar pela humilhação dos gambés passar para seguir a vida.
Ele estava revoltado, o que revoltou o Jairo também, é que mesmo sem nenhum flagrante, com o documento em dia e nenhuma infração, ele tomou um tapa na nuca. Ele disse que chegou a tropeçar no capacete rosa e deu uns passos para a frente. O policial simplesmente o agrediu para liberá-lo.
Meu, depois de agredido, agradeceu ao policial, montou na moto vagarosamente e saiu bem tranquilo. Antes de mandar mensagem pro Jairo, ele pegou a Paulista e desceu a Augusta. Mandou o áudio, com voz de choro, avisando que ia parar no Las Jegas, um fecha nunca que batiza o chope, o uísque e te faz esquecer o quão merda é a vida.
Jairo convence ele a tomar uma dose apenas e voltar para casa, tomar um banho, colar na casa da Ju para fumar um, pedir uma pizza e tentar esquecer o que passou.
Meu parece mais calmo depois do papo, mas o ódio permanece, porque na próxima blitz pode ser que aconteça a mesma coisa, pode ser que seja pior. Ele é novo, mas já está exausto.
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Os lançamentos do Parque Modelo acontecem em São Paulo nos dias 6 de julho, às 19 horas, dentro do estande da Editora Jabuticaba, n’a Feira do Livro, do Pacaembu (Praça Charles Miller, s/n) e dia 12 de julho, também às 19 horas, na Livraria Megafauna, no Edifício Copan (Avenida Ipiranga, 200, loja 53). Nesta noite acontece um papo com Oga Mendonça, que fez a ilustração da capa, e Ricardo Terto, que assina o prefácio.



