Pra todo dia
Ele acreditava que simpatia não precisava mais fazer parte de seu cardápio comportamental. Achava que as relações sociais eram interesseiras, desinteressantes e preferia o seu mundinho interior. Um mundo com a música que gostava (em seus fones) e personagens que queria ser (em seus livros). Era bem-sucedido, tinha uma boa casa e era chefe do setor administrativo de uma grande empresa. Sua função era perfeita para o seu estado de espírito. No seu job description não tinha cordialidade no trato diário com os subordinados. Ele andava por aí com ar de superioridade.
Optou pelo táxi em vez de seu carro. Odiava o trânsito. Sabia os atalhos mais oblíquos do seu bairro e não suportava ficar mais do que 25 minutos trancado em um automóvel. Em casa, deixava os sapatos ao lado da porta de entrada, averiguava se a empregada havia deixado as coisas em ordem e via o que tinha no micro-ondas. Jantava, assistia ao noticiário e conferia os e-mails em seu celular. Como não suportava rádios comerciais, comprava CDs com voracidade, mas sempre pela Internet, pois não aguentava a falta de preparo dos vendedores. Em sua estante, como um troféu, estava grande parte da discografia dos Beatles, mas para a ocasião preferiu Corinne Bailey Rae.
Não que estivesse tentando compreender o universo feminino, nem tampouco conquistar alguém. Só achava a voz da cantora diferenciada e a despretensão das letras um algo a mais.
Temperou a salada que estava na geladeira. Alface, tomate-cereja, rodelas de cenoura, beterraba e picles rechearam seu prato. Foi até a cozinha novamente e esquentou o prato principal. Arroz, bife à milanesa e batatas-frias já murchas giravam por um minuto e 1 minuto e 30 segundos ininterruptos. Sentou-se novamente à mesa e devorou a refeição sem o menor pudor de sujar a camisa nova.
Acabou o jantar, trocou o uniforme de empresário por roupas mais confortáveis e foi dar algumas voltas pelo condomínio. Com os fones no ouvido nem se dava ao luxo de olhar para o lado quando cruzava com os vizinhos.
Não se preocupava também em cantarolar trechos de músicas de Corinne. Cruzou com seu dentista e nem percebeu porque estava mais atento ao Put Your Records On. Ele tinha essa mania de ouvir a mesma música repetidas vezes. Doutor Oliveira esboçou um aceno, mas a única coisa que recebeu em troca foi um canto em falsete.
“Girl, put your records on, tell me your favorite song. You go ahead, let your hair down...”
Doutor Oliveira não ouviu o resto da música, mas ele continuou a cantá-la sem a menor preocupação com as vizinhas e seus cachorros.
“You’re gonna find yourself some where, some how.”
Ele também tinha o hábito de ouvir o disco inteiro depois de repetir muitas vezes uma música só. Chegou em casa ao som de Butterfly, décima canção do álbum de Corinne Bailey Rae e foi tomar banho. Equilibrou a temperatura da água, esboçou algum muxoxo com o calor de janeiro e pareceu se desligar de mais um dia de trabalho. Um dia como o anterior.
Sentia que precisava de novidades. Queria o frio na barriga dos tempos de escola, precisava se levar menos a sério e talvez as músicas que ouvia tinham alguma responsabilidade neste novo sentimento. “O que Corinne faria se entrasse no trabalho amanhã às 9 horas?”, pensou ele. “Ah, que ideia. Artistas não acordam cedo, se ela tivesse que estar lá nesse horário, estaria provavelmente de mau-humor.”
Terminou o banho, colocou o pijama recém-lavado e deitou-se. Antes de dormir, pensou em como seria se ele fosse um chefe mais simpático, cogitou até arrumar uma namorada que no futuro se tornaria esposa, tudo como planejado previamente. Pensou em ser mais legal, mas desistiu rápido.
Acordou às 6 horas, como de costume, fez seus exercícios matinais, tomou um café da manhã reforçado e ligou para José, taxista de confiança e talvez a única pessoa capaz de permanecer mais do que 15 minutos com ele no mesmo ambiente.
Chegou no trabalho com dez minutos de antecedência, como fazia todos os dias, pegou o caderno de Economia do Estadão, porque já tinha lido o Diário do Comércio em casa, e folheou sem o menor interesse. Os funcionários começaram a chegar e foi olhando para cada rosto como se quisesse se aproximar ou julgar seus comportamentos. Ninguém sabe ao certo. Sua cara é uma interrogação.
Olhou para Hugo, seu estagiário, e logo percebeu porque não ia com a cara dele. Aquele cabelo mal ajustado, calças um pouco largas, camisa amassada e chiclete. Viu Soraia, responsável pelas vendas do setor, entrar no escritório com dez minutos de atraso e na hora lembrou porque não gostava dela. Falava alto e com uma voz estridente, vez ou outra esquecia o celular em cima da mesa com um toque irritante. E assim viu pessoa por pessoa e lembrava instantaneamente de cinco a dez razões para não se aproximar delas.
Por volta das 13h45 desceu para almoçar sozinho – ritual quebrado apenas com almoços de negócios. Pediu abadejo ao molho de alcaparras e um suco de melancia. Voltou para o trabalho e passou o resto do dia preso em reuniões tediosas.
Pontualmente às sete horas, ligou para José (um dos poucos contatos pessoais de sua agenda telefônica) e desceu para esperá-lo no saguão do prédio.
20 minutos depois estava colocando a chave na porta de sua casa. Entrou descalço e completou o mesmo ritual do dia anterior com três diferenças: na salada havia tomate normal, pepino e um pouco de rabanete, no prato principal um belo filé ao molho madeira e nas caixas de som ouvia jazz.
Esse conto foi escrito em fevereiro de 2010. Uma das primeiras tentativas de construir uma ficção, roteiro ou algo parecido. Não sei ao certo, mas eu estava muito focado em descrever bem um personagem por mais entediante que ele fosse, traçar sua personalidade, ou a falta dela, criar semelhanças e diferenças com quem lê. Bom, depois de 14 anos esse exercício veio ao mundo.
Espero que gostem.
Até já



