Próxima estação Sé ...
desembarque pelo lado esquerdo do trem
Eu virei uma dessas pessoas tristes do metrô
da gente que passa estação por estação com olhos vidrados
pensando n’outro mundo,
em outro tempo.
Estou agora na estação Consolação
com o olhar lá longe,
cabeça meio baixa,
num estado de semiconsciência.
Virei uma dessas pessoas tristes do metrô
da gente que corre na baldeação,
que calcula o tempo de cada respirada,
que calcula a distância entre o trem e a plataforma,
que não se comove mais com as crianças, ambulantes ou cães-guia.
Outro dia reparei em um sujeito como eu.
Quase careca, quase arrumado, quase bonito, quase vivo.
Ele tinha um olhar fixo, cansado.
A cabeça pendia para a direita e o corpo derretia lentamente num banco azul.
Seus sapatos eram cansados também,
seus olhos miravam o nada, o vazio de sua existência.
É aquele olhar de uma dessas pessoas tristes do metrô que descobri que virei.
Você nunca sabe precisar qual foi o momento em que você virou um figurante,
que você se tornou o trânsito no fluxo da cidade.
O olhar fica lá longe,
opaco,
sonolento,
disperso.
Atento apenas ao tempo.
Somos cronômetros apressados,
derrotados por nós mesmos,
vencidos pela rotina, pelos vagões e as mesmas escadas rolantes.
Virei uma dessas pessoas tristes do metrô
da gente que você sabe que está cansada na volta do trabalho,
das malas, mochilas e maletas,
dos pés pesados e da cabeça nas nuvens.
Daquela gente que vive na metrópole como se fosse uma mobília do caos.
Um figurante da hora do rush:
O trânsito.
Virei uma dessas pessoas tristes do metrô.
Não sei quando,
sequer sei em qual estação o fato se deu.
Mas quando percebi, já estava derretendo lentamente no banco azul com a cabeça pênsil pra esquerda quase me apoiando no vidro.
Felizes são os que se perdem, se atrasam, se emocionam com o transporte público.
A rebeldia do gado do caos é descer na estação errada, esquecer o sentido, se perder no caminho, comprar balas ou capinha de celular na estação São Bento.
Desci do vagão e me vi lá dentro meio derretido e no horário. Estou a ponto de perder, estou pronto pra me achar. Estou pronto pra ser onde bem entender.
Vou de busão.
Texto escrito em 2019 para meus amigos Tiberio Azul e Jr Bellé
As lindas fotos de pessoas não necessariamente felizes no metrô são do multitalentoso Gustavo Felipe. Sigam ele no Instagram para ver essas e outras beleza.












