Torcedor
Ele gritava, berrava, urrava por 90 minutos e mais o tempo de acréscimo. Em casa, era como um bárbaro. Todos sabiam de sua fúria cega em dias de jogos de futebol. Quebrava os móveis quando perdia uma partida importante e pagava cerveja para quem passasse no Bar do Aníbal nos dias da vitória.
Apostava com Deus e o mundo quando seu time estava bem na tabela de classificação. Era chato, torcedor daqueles que dava até medo de discutir. Estridente, barulhento, provocador na vitória e macambúzio e depressivo na fase ruim.
Era valente quando o assunto era o seu time. Era raivoso e brigava com o até com o Diabo para defender seu clube. Esbravejava, ameaçava, provocava, provocava, provocava.
Numa quarta-feira sem graça, encontrou um torcedor ainda mais neurótico. Provocação daqui, empurra dali. O tom foi subindo, subindo. As palavras viraram gritos e os gritos ecoaram.
Álcool e valentia fizeram uma mistura explosiva. Avançou em Zelão, um galego de quase dois metros de altura, como uma onça avança na zebra naqueles documentários de animais. Era um bicho.
De tanto procurar encontrou a briga que semanalmente provocava pelas ruas do bairro, pelos estádios e até pela internet.
Um pouco antes da confusão, ele exibia a tatuagem com o símbolo de seu clube no antebraço.
— Isso aqui é time. Não é aquela merda que você torce.
Botou o dedo na cara, chutou cadeira, ofendeu a família e Zelão até que o galego estourou.
Uma pancada e alguns chutes e ele estava no chão gritando de dor e de raiva. Quanto mais apanhava, mais defendia o seu time.
Zelão só cansou de bater quando ele cansou de gritar e ele só ficou em silêncio quando a consciência foi embora.
O grandalhão saiu de cima dele como um raio e se escondeu por alguns dias na casa de alguns parentes num bairro distante.
Ele acordou no hospital sem conseguir enxergar direito e com alguns pontos na cara. Perdeu mais do que os dentes e o emprego com a surra.
A camisa branca de seu clube ficou manchada de um vermelho que não combinava.
Saiu do hospital semanas depois. Placa de metal no maxilar, escoriações e pontos por todo rosto e a alma em frangalhos. Não tinha mais brilho, não tinha mais quase nada.
Não saia mais para beber, não vestia a camisa de seu time, e sequer gritava o hino como fazia religiosamente antes de cada partida. Estava apático. Suas andanças eram da escola dos filhos para casa. A cabeça andava baixa e os ombros caídos. Tinha vergonha do que era e mais ainda do que se tornou.
Um ex-torcedor.
O bar do Aníbal continua igual. Outros homens neuróticos brigam por futebol, sinuca ou qualquer outro motivo besta. Se tem jogo na TV, tem gente discutindo no salão. Um ou outro ainda pergunta pelo cara que tomou um pau do Zelão. Ele sumiu, murchou, virou uma sombra pálida e adestrada do que era.
Quando passa em frente a Zelão, abaixa a cabeça. Quando passa em frente ao boteco, se limita a um xoxo bom dia, aperta o passo e a Bíblia embaixo do braço.
Este é mais um texto das gavetas de 2010. Tento conversar com aquele jovem de 24 anos. Acho graça de como pensava, das expectativas nas pessoas, na vida, mas vejo poesia no olhar. Todo dia torço para não deixar de enxergar a vida com encantamento e leveza.
Até semana que vem.



