Vertigem
Isso aqui é alto pra caralho! Onde eu tava com a cabeça quando decidi aceitar esse emprego? Eu não tenho estômago pra isso. Nem posso imaginar olhar pra baixo. Aqui do meu lado, Silvério caminha com a destreza de uma modelo, mas puta que pariu, estamos no décimo nono andar do lado de fora de um prédio cheio de vidros. Essa varandinha mequetrefe não é segura, sei disso. Ela tem pouco mais de dois metros e a cordinha velha amarrada na minha cintura não vai me livrar de uma morte dolorosa, essa que é a mais pura verdade. Valha-me Nossa Senhora, eu peso quase 90 quilos, Silvério outros 100. Isso não pode ser seguro. Não pode. Lá embaixo, ele me diz, as pessoas parecem formiguinhas bem miúdas, eu não consigo nem ver. Ele se sente poderoso. Eu não, tenho medo de altura.
Sofro dor de barriga ao acordar. Só de pensar em mais um dia de trabalho, minha espinha congela. Minha mulher acha que é frescura, que uma hora eu acostumo. Silvério vive dizendo.
— Deixa de frescar, macho. Tá lá embaixo é muito pior.
Mas eu não acho, gosto dos meus pés lá no chão. Sem contar que o salário nem é grande coisa. Isso aqui não é vida pra gente, não.
Encontro Silvério todos os dias às seis da manhã. O filho da puta acorda diariamente de bom humor. Como consegue? Ele vem chegando com aquele desodorante fedorento e aquela cara de quem transou a noite toda. O sorriso vai da orelha direita à esquerda e nunca usa blusa de frio, nem quando estamos a centenas de metros do chão. Conheci Silvério há mais de 10 anos e até hoje ele tem o mesmo Chevette branco. Isso me faz pensar que eu faço uma coisa que odeio há mais de dez anos. Talvez essa seja a penitência que tenho que pagar em vida. Uma vez vi uma mulher falando na televisão sobre carma. Acho que esse é o meu. Como um limpador de vidros pode ter medo de altura?
Minha primeira subida foi desesperadora — a última também foi, e a próxima será de doer —, mas a primeira foi a pior. Eu não sabia direito o que fazer. Silvério sorria e me mandava relaxar. Dizia que o medo ia passar depois de uns dias, que eu ia me acostumar. Porra nenhuma. Lembro como se fosse hoje, meu estômago foi parar na boca e do oitavo andar de um edifício na Avenida Paulista eu vomitei… Voou arroz, feijão, pânico, carne de panela, medo, salada de tomate, cagaço, alface, desespero. Caiu tudo na calçada. Silvério ria e balançava ainda mais o cesto. Achei que fosse morrer, ainda acho de vez em quando. O gorfo se repetiu algumas vezes, mas não foram muitas. Decidi comer menos antes do trabalho e nunca mais olhar pra baixo quando estivesse nas alturas.
O serviço é simples. Passo um pano molhado com água e um desses limpadores industriais de vidro. O negócio é tão cheiroso, tão cheiroso que chega a feder e dar dor de cabeça. Depois passo um rodinho e já tá pronto.
Fico sempre curioso com as pessoas que tão dentro desses prédios, mas elas raramente enxergam a gente. Subo até onde o Judas perdeu as botas, as meias e criou calos nos pés pra continuar sem rosto, sem nome, sem nada. A propósito, me chamo José Maria da Silva, um nome muito comum pra querer ser alguém na vida. Um ou outro já até virou presidente, mas tudo o que é Silva que eu conheço tá pelas beiradas, comendo a migalha do pão que o coisa ruim, só de maldade, amassou.
Isso aqui é alto pra caralho! Faça a conta comigo. São 19 andares, cada andar tem uns quatro metros de altura. O térreo tem uma entrada luxuosa que deve ter mais uns 20 metros de uma construção esquisita e cheia de coisa que acho feia. Chegamos à conclusão de que estamos a uma altura em que eu não posso olhar pro chão, em que eu mal posso me mexer. São quase 100 metros que me separam de virar manteiga de garrafa no asfalto quente. E ainda tenho que olhar pra cara de areia mijada de Silvério.
Tem dias que acordo ensopado, porque sonho que caio do andaime. Minha mulher me diz que uma hora eu me acostumo. É verdade, eu já me acostumei. Não com a altura, mas com a falta de noção dessa criatura. Minha Nossa Senhora. São dez anos trabalhando nesta merda e ela ainda acha que uma hora dessas, como numa mágica do Mister M, eu deixarei de ter cagaço de limpar vidros em arranha-céus.
Hoje o dia tá nublado, ventando, meio frio e o Silvério com sua camiseta carcomida e seu maço de cigarro colado ao seu ombro direito. Ele solta uma baforada fumacenta enquanto prepara os equipamentos de segurança. Segurança é uma piadinha, né? A gente fica pendurado por uma corda, em um andaime, jogado na lateral de um prédio como se fosse náufrago. Um vento forte nos tira o conforto e me tira o sossego.
Eu gosto é de dia de sol, sem vento, sem chuva. Mas em São Paulo isso é praticamente impossível. Amanhece frio, você pega o busão com as janelas todas fechadas e aquele cheiro de peido, com bafo e cheiro de sovaco. Chega ao trabalho suado e o dia começa a esquentar. Esquenta, esquenta, esquenta… e no meio da tarde, fodeu. Cai o mundo em cima da sua cabeça. É trânsito, farol quebrado, árvore que cai, enchente, sofá boiando, merda pra tudo quanto é lado. A noite volta a esfriar um pouco e você volta pra casa cansado, molhado, fedido e mal pago no mesmo busão lotado. Aqui em cima quando chove a gente fica quietinho esperando passar. Sentamos e torcemos pra que o prédio tenha para-raios, para-chuva, para-qualquer coisa. E o pior: muitas vezes a chuva atrapalha nosso trabalho.
Mas passarinho atrapalha mais. Chuva não caga, né?
O prédio de hoje tem 23 andares e já limpamos quatro deles, claro que de um lado só. Acho que tem outra dupla no outro canto, mas nem sei quem é. Vez ou outra eu reparo nos escritórios. Já viu como são chiques esses lugares? E quanta mulher gostosa tem? Não é que nem no meu bairro. Lá elas são gostosas também, mas é diferente. Olho sem disfarçar, ninguém me enxerga mesmo, então foda-se. Mas ainda acho que elas usam roupas demais. Advogada, arquiteta, jornalista, empresária, vejo gostosa com todo tipo de diploma. Bem que eu queria um desses. Estudar numa faculdade subir no prédio pelo elevador.
O Silvério tem quatro filhos com três mulheres diferentes. Todo o dinheiro que ele trabalha de sol a sol vai embora, só sobra o do cigarro e o da cachaça. Já falei pra ele usar camisinha, mas ele não tá nem aí. Tempos atrás ele andava com uma garrafinha de cachaça aqui no andaime. Bebia muito mesmo. Bebe, fuma e faz filho. Esse é seu mantra. Mantra… uma vez vi uma mulher falar disso na TV também, mas não me lembro em qual canal. Acho que foi no 4.
Eu não gosto do que faço, mas sei porque estou aqui. Eu preciso desse dinheiro, que por sinal é pouco. Subo no andaime pra viver minha vidinha meia sola. Aqui é alto pra caralho, mas o dia já já acaba. Faltam só duas horinhas de tortura, de cocô de passarinho e de suor nas mãos.
Fico pensando em outras profissões. Poderia ser homem-placa, mas isso é serviço pra idosos. Adoraria ser homem de terno e com diploma no bolso, se fosse assim, eu nunca mais carregaria peso na vida, nunca mais subiria nas paredes como um homem-aranha ordinário. Carregaria só mala de dinheiro e seria tratado com respeito pelos garçons. Mas não daria gorjeta porque isso é coisa de gente besta. Não ganho um centavo a mais por limpar vidro de ricaço. Por que o garçom que carrega só a comida e a bebida tem esse privilégio? Profissão de homem vagabundo, desses fulanos que vieram de Pedro Segundo arrumar grana fácil. Ok, confesso que já tentei ser garçom, mas no primeiro dia de trabalho fui demitido por errar dois pedidos e derrubar suco de tangerina numa velha loira cheia de silicone. A cara dela era tão esquisita que parecia de plástico. Ela me chamou de verme, dá pra acreditar? Garçom cospe na comida e ainda ganha caixinha. Quem pede suco de tangerina? É mexerica, porra! Silvério me disse que lá no Sul eles chamam a fruta de bergamota. Sei não, acho que ele inventou isso. Ele normalmente mente.
Isso aqui é alto pra caralho e não vejo outra forma de subir na vida. Pela frente hoje ainda tenho um metrô lotado e um ônibus com pessoas, assim como eu, desanimadas. Eu gosto dos meus pés no chão, mas no transporte coletivo às vezes eles flutuam. Deus me fez pequeno pra cheirar sovaco, acho. Em casa terei de lidar com o destempero — da comida e do humor — da minha mulher. Ela vai reclamar de duas coisas que eu fiz e de três coisas que deixei de fazer. É normal. Acho que em todo lugar é assim, não?
Amanhã vou acordar de novo ainda de noite. Às seis da manhã vou encontrar Silvério, seu sorriso desfalcado, seu cigarro fedido e sua camiseta velha. Vamos subir em algum prédio, talvez no mesmo, e fazer nosso serviço como robozinhos. Ele vai contar algumas mentiras, jogar bitucas ainda acesas nos que passam lá embaixo e vou olhar as mulheres diplomadas e vestidas demais dos escritórios. A cordinha de segurança vai ser a mesma e eu continuarei o mesmo José Maria da Silva: um homem que tem nome de mulher no meio do nome e tem um Silva no final. Como pode um limpador de vidros ter medo de altura?
Este conto foi escrito inicialmente em 2014 e, desde então, junta poeira nas gavetas do Google Docs. Depois de um longo inverno, e com o apoio da Ainá — minha melhor revisora e pessoa com quem compartilho a vida e os sonhos —, perdi o medo de altura e decidi publicá-lo.
As ilustrações que o tornam ainda mais especial são assinadas pelo Luiz Pereira, o fffirma, designer e artista multimídia que transborda talento, técnica, competência e simplicidade mineira. Obrigado pelo presente.





Eu amo esse texto! Tem que virar um roteiro de curta <3