Vista pro mar
Hoje eu vi a vida passar pela janela,
fez chuva, sol e vento que levou um barco a vela ao fim do horizonte.
Ontem na orla de Amaralina,
soterrado entre os carros,
vi um grupo de pássaros brancos,
e um único negro,
pescar em bando.
Eles sobrevoavam a onda e mergulhavam um a um sem se preocupar com o trânsito caótico.
Vejo a Casa de Yemanjá, vejo o mar.
Enxergo o futuro lá onde a vista já quase não alcança.
Comprei um binóculo para ver um pouco mais,
sonhar um pouco mais,
bisbilhotar um pouco mais.
Para ver a vida passar pela janela sem pressa,
sem sombra de dúvida de que posso voar sob o Oceano.
Vejo a vida passar entre os gritos e gols das crianças no intervalo da aula,
no descanso vespertino dos gatos no beiral,
no salitre,
no batuque que surge depois das dez,
nos navios que cruzam lá no fundo vagarosamente.
As ondas dançam e se atracam nas pedras,
vejo a vida passar pela janela da sala,
na obra que rigorosamente faz barulho de segunda a sexta,
às vezes ao sábado.
nos pequenos mico-leões que desfilam no telhado da escola.
Tudo se mexe à minha frente,
mar,
aves,
plantas,
sonhos,
gente.
Hoje eu vi a vida passar pela janela e acho que encontrei um lugar mais confortável que o ventre.




Um texto desses congela o tempo e a vida. Dá a certeza de que se tu ficar nessa janela o resto da vida, nada perderá dela, a vida. Que foda, que foda!
Isso é uma obra-prima.